ABERTURA

Todo mês o empresário olha o saldo da conta e sente um certo alívio. Tem dinheiro ali. O que quase ninguém percebe é que parte daquele dinheiro nunca foi dele.

É imposto. Um valor que ele ainda vai recolher mais pra frente. Só que, até a data de pagar, esse dinheiro fica girando dentro da empresa. Cobre a folha, segura um fornecedor, atravessa uma semana magra. Sempre funcionou assim.

A reforma tributária está mudando exatamente esse ponto. E é uma mudança que mexe no caixa, não na teoria.

O TEMA CENTRAL

Hoje o jogo é simples. Você vende, recebe o valor cheio e recolhe o imposto depois, no mês seguinte. Nesse intervalo, o dinheiro do imposto fica na sua conta. Na prática, ele vira capital de giro temporário. Não é seu, mas está com você por algumas semanas.

A reforma criou um jeito novo de cobrar. O imposto passa a ser separado e enviado ao governo no momento do pagamento da venda. Você recebe só o que de fato é seu, o valor líquido.

Em 2026 isso ainda está em fase de testes. A maioria das empresas já emite nota com os novos tributos, mas sem cobrança de verdade. Quem está no Simples Nacional não tem alteração neste ano. A virada real vem na sequência, conforme o modelo entra em vigor.

Parece detalhe contábil. Não é. É o fim de uma folga de caixa que muita empresa usa sem nem perceber.

Um exemplo deixa claro. Imagine um negócio que fatura 500 mil por mês e recebe dos clientes, em média, 40 dias depois da venda. Hoje, o valor do imposto dessas vendas fica girando na conta nesse meio tempo. Quando a separação na hora virar regra, esse dinheiro deixa de passar pela sua conta. Estimativas de especialistas apontam que, para uma empresa nesse perfil, a diferença no caixa pode chegar à casa das centenas de milhares de reais.

A conclusão é direta. O seu caixa não vai ficar menor. O que muda é que aquela folga que parecia sua nunca foi. E quem entende isso agora ganha tempo para se ajustar com calma, em vez de descobrir no susto.

NA PRÁTICA

Refaça a conta do seu caixa imaginando que o dinheiro do imposto sai na hora da venda. Veja, em números, quanto de giro você deixa de ter.

Olhe seus prazos. Se você vende parcelado e recebe em 30 ou 60 dias, esse descasamento vai pesar mais. Vale rever política de prazo com cliente e com fornecedor antes do aperto.

Deixe uma linha de crédito aprovada e parada, como reserva. Crédito contratado com tranquilidade é barato. Crédito contratado no desespero é caro.

E leve esse tema para o seu contador agora. A boa conversa é em 2026. A conversa ruim é no primeiro fechamento apertado lá na frente.

RADAR

A nota fiscal da sua empresa já mudou — Desde janeiro, a maioria das empresas emite nota com os novos tributos (IBS e CBS), por enquanto só para registro. Vale checar se o seu sistema já está adaptado.

Simples Nacional segue igual em 2026 — Quem é optante não tem alteração neste ano e só passa a destacar os novos tributos na nota a partir de 2027. Tempo extra para planejar.

O relógio até 2033 — A transição é longa. PIS e Cofins começam a ser substituídos em 2027 e o novo modelo só fica completo em 2033. Dá tempo de se preparar, desde que comece agora.

ENCERRAMENTO

A reforma não vai deixar a sua empresa mais pobre. Vai deixar mais clara a conta de quem é cada real. E empresário que enxerga a conta antes dos outros sempre joga com vantagem.

Bons negócios, Geofre Saraiva Advogado

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