ABERTURA
Na mesma semana de agosto, duas notícias contaram a mesma história por ângulos opostos.
O Habib's, uma das maiores redes de fast-food do Brasil, entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar uma dívida de R$ 265 milhões. Poucos dias antes, a Justiça decretou a falência da Oi, que já tinha passado por duas recuperações e mesmo assim não se reergueu.
De um lado, a empresa que pede socorro a tempo. Do outro, a que pediu, tentou e não deu. E entre esses dois extremos existe um número que deveria estar na mesa de todo empresário: o Brasil nunca teve tantas empresas em recuperação judicial.
O TEMA CENTRAL: O recorde que ninguém comemora
Em 2025, 2.466 empresas entraram em recuperação judicial no país. É o maior número da série histórica da Serasa Experian, com alta de 13% sobre o ano anterior.
O detalhe que muda tudo está na comparação. O pico anterior foi em 2016, no fundo da recessão, com juros e inflação nas alturas. Só que em 2025, sem recessão declarada, o número de empresas em apuros foi ainda maior. A conclusão é incômoda: o problema hoje não é a economia travando por inteiro. É o custo do dinheiro.
Juros altos e crédito caro sufocam justamente quem tem menos margem para negociar. Por isso o perfil mudou. A recuperação judicial deixou de ser assunto de gigante. Entre o início de 2023 e meados de 2026, o número de microempresas nesse processo cresceu 133%. Nas pequenas, 69%.
Vale lembrar o que a recuperação judicial realmente é, sem juridiquês. Não é falência. É um pedido à Justiça para renegociar as dívidas de forma organizada, com todos os credores de uma vez. Ao aceitar o processamento, o juiz concede uma espécie de blindagem: por 180 dias, as cobranças e penhoras ficam suspensas enquanto a empresa negocia um plano. Depois da reforma de 2020, o instrumento ficou mais moderno e acessível, inclusive para negócios menores.
Só que existe uma armadilha. A blindagem não cobre tudo (a dívida com o Fisco continua correndo), e cerca de 30% das empresas que entram em recuperação acabam na falência mesmo assim. Não porque o instrumento falhe, mas porque muitas chegam tarde demais, quando o caixa já zerou e não sobra fôlego para cumprir plano nenhum.
A recuperação judicial não é o fim da linha. É uma ferramenta. E, como toda ferramenta, funciona para quem usa na hora certa, com plano na mão, e não como último suspiro.
NA PRÁTICA
O recado não é entrar em recuperação judicial. É nunca precisar chegar nela no desespero.
Olhe seus números todo mês. Fluxo de caixa, nível de endividamento e, principalmente, o custo real da sua dívida. Decisão boa começa com clareza, não com susto.
Mapeie o que dá para renegociar direto com bancos e fornecedores antes de ir para a Justiça. A negociação extrajudicial ainda é pouco usada no Brasil e costuma ser mais rápida e barata que o processo judicial.
Não espere o caixa zerar. A melhor recuperação é a planejada, com um plano viável, feita enquanto ainda há margem de manobra.
E lembre: a dívida tributária não para na recuperação. Se ela pesa no seu balanço, trate dela em paralelo, com transação ou parcelamento.
Se o aperto já é real, procure orientação especializada cedo. Entre recuperar e quebrar, a diferença costuma ser o tempo de reação.
RADAR
Habib's pede recuperação judicial — A rede negocia R$ 265 milhões em dívidas. Sinal claro de que a pressão chegou também às grandes marcas de consumo, não só ao pequeno negócio.
Justiça decreta falência da Oi — Depois de anos e duas recuperações, a companhia encerra o ciclo. O lembrete é duro: recuperação judicial não é garantia de sobrevivência, é uma chance que exige execução.
Inadimplência das empresas acende alerta — Havia 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro. Como a inadimplência costuma vir antes dos pedidos de recuperação, a pressão tende a continuar em 2026.
ENCERRAMENTO
Recuperação judicial não é sobre quebrar. É sobre decidir, na hora certa, quem continua de pé.
Bons negócios,
Geofre Saraiva
Advogado | OAB/PI 8.274 | OAB/SP 487.426
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