ABERTURA

Imagine que você está dirigindo um carro que funciona bem. Não é o mais moderno, mas você conhece cada barulhinho, sabe quanto gasta de gasolina, sabe quando precisa trocar o óleo. Dá para gerenciar.
Agora imagina que alguém troca esse carro por um modelo totalmente diferente, com painel novo, motor novo e combustível novo, mas sem te dar um manual. E avisa: você vai ter que aprender a dirigir esse carro novo enquanto ainda usa o antigo. Ao mesmo tempo. Por oito anos.
Isso é, em essência, o que está acontecendo com os impostos da sua empresa a partir de 2026.
A Reforma Tributária não é um tema de futuro. Ela já começou. E a maioria dos empresários ainda está achando que dá para esperar.
O TEMA CENTRAL
A Reforma que saiu do papel: o que mudou, o que vai mudar e por que você precisa agir agora
Vou te explicar do jeito mais direto possível.
Durante décadas, as empresas brasileiras pagaram impostos sobre vendas e serviços de uma forma caótica. Eram cinco tributos diferentes, cada um com suas regras, seus prazos, suas exceções. PIS, COFINS, IPI, ICMS e ISS. Cinco nomes diferentes, cinco formas de calcular, cinco formas de errar.
A Reforma Tributária aprovada em 2023 (Emenda Constitucional nº 132) decidiu acabar com essa bagunça. A ideia é substituir esses cinco tributos por dois: o CBS e o IBS.
O CBS, federal, substitui o PIS e o COFINS. O IBS, estadual e municipal, substitui o ICMS e o ISS.
Simples na teoria. Complexo na prática, porque a troca não acontece de uma vez. Ela acontece ao longo de oito anos, de 2026 a 2033. E durante esses oito anos, sua empresa vai ter que operar com o sistema antigo e o novo ao mesmo tempo.
O que já mudou em 2026
Desde 1º de janeiro de 2026, as empresas no Lucro Real e no Lucro Presumido precisam emitir notas fiscais com dois campos novos: um para o CBS (alíquota de 0,9%) e outro para o IBS (alíquota de 0,1%).
Atenção: esses valores aparecem na nota, mas não são cobrados por enquanto. Eles podem ser compensados com o que a empresa já paga de PIS e COFINS. Ou seja, o impacto financeiro em 2026 é próximo de zero. O impacto operacional, não.
Isso significa que o sistema de emissão de notas fiscais da sua empresa precisa estar atualizado para incluir esses novos campos. E se não estiver, você já está tecnicamente em desacordo com a Lei Complementar nº 214/2025, que regulamenta a Reforma.
A boa notícia é que o governo prometeu não aplicar multas durante esse período de adaptação, enquanto os regulamentos definitivos do CBS e do IBS ainda estão sendo publicados. Mas isso não significa que você pode ignorar o assunto.
Empresas do Simples Nacional estão temporariamente fora dessa exigência. Para elas, a obrigação de destacar CBS e IBS nas notas só começa em 2027.
O que muda em 2027, e por que isso preocupa
2027 é quando o jogo muda de verdade.
Em janeiro de 2027, PIS e COFINS são extintos. A CBS entra com alíquota plena. E é aqui que muitos empresários vão levar um susto, especialmente quem está no Lucro Presumido.
Hoje, uma empresa de serviços no Lucro Presumido paga 3,65% sobre o faturamento a título de PIS e COFINS. Com a CBS, a alíquota estimada sobe para cerca de 9%, ainda que com direito a créditos por compras e despesas tributadas.
O problema é que o principal custo de muitas empresas de serviços é a folha de pagamento, e folha de pagamento não gera crédito de IBS ou CBS. Isso significa que, dependendo do seu perfil de negócio, o impacto pode ser considerável.
Para empresas da indústria, do comércio, e de qualquer setor com cadeia de fornecedores tributados, o cenário pode ser diferente e até favorável, já que o sistema de créditos tende a compensar parte do aumento.
Cada caso é um caso. Por isso a análise personalizada com seu contador, ainda em 2026, é inegociável.
O que acontece depois
A partir de 2029, o ICMS e o ISS começam a ser gradualmente substituídos pelo IBS. Esse processo dura até 2033, quando o sistema antigo some de vez e o novo opera em pleno.
Até lá, sua empresa vai conviver com dois sistemas ao mesmo tempo. Dois conjuntos de regras, dois sistemas de apuração, duas lógicas de crédito.
É burocracia dupla antes de virar burocracia menor. E quem não se preparar vai pagar o preço, literalmente.
NA PRÁTICA
Quatro coisas que o empresário deve fazer ainda em 2026:
1. Verificar se o sistema de emissão de notas está atualizado. Ligue para o fornecedor do seu ERP ou software fiscal e pergunte se os novos campos de CBS e IBS já estão habilitados. Isso não é detalhe. É obrigação legal.
2. Fazer uma simulação tributária com seu contador. Peça para ele calcular quanto você pagaria de CBS em 2027 comparado com o que paga hoje de PIS e COFINS. Se você está no Lucro Presumido e tem muitos custos com folha de pagamento, o resultado pode surpreender. E você ainda tem tempo de se reorganizar.
3. Revisar se o seu regime tributário ainda faz sentido. O Lucro Presumido, que sempre foi a opção mais confortável para prestadores de serviços, pode perder atratividade com a Reforma. Especialistas estão vendo uma movimentação crescente de empresas avaliando a migração para o Lucro Real. Faça essa análise antes de 2027.
4. Não deixar créditos de PIS e COFINS para trás. Todo saldo credor de PIS e COFINS gerado até dezembro de 2026 pode ser aproveitado depois na CBS, mas só se estiver devidamente escriturado na contabilidade. Converse com seu contador sobre isso agora, antes que dezembro chegue correndo.
RADAR
Lucro Presumido ficou mais caro em 2026 — A Lei Complementar nº 224/2025 elevou em 10% a base de cálculo do IRPJ e da CSLL para empresas do Lucro Presumido com faturamento acima de R$ 5 milhões ao ano. A medida já está valendo integralmente desde o segundo trimestre de 2026. Se sua empresa está nessa faixa, o impacto já chegou na sua guia.
Simples Nacional tem prazo para decidir sobre 2027 — Empresas do Simples Nacional têm até setembro de 2026 para decidir se, em 2027, continuam no regime atual ou migram para o sistema híbrido do novo IVA. Essa escolha pode fazer diferença significativa dependendo do perfil de clientes da empresa, especialmente para quem vende principalmente para outras empresas.
Receita Federal intensifica fiscalização sobre IRPJ e CSLL — O relatório de fiscalização de 2025 da Receita Federal mostrou que os maiores focos de autuação foram justamente em IRPJ, CSLL e contribuições previdenciárias. O cerco fiscal não vai diminuir em 2026. Se você tem planejamento tributário agressivo, vale revisar antes de ser autuado.
ENCERRAMENTO
A Reforma Tributária não vai esperar você estar pronto. Ela tem calendário, tem cronograma e tem consequência para quem ficar parado.
2026 é o ano de se preparar sem pressa, mas sem descanso. Quem usar esse tempo bem chega em 2027 organizado, com regime tributário revisado, sistema fiscal atualizado e créditos preservados.
Quem deixar para a última hora vai chegar correndo, confuso e pagando mais do que precisava.
Bons negócios, Geofre Saraiva Advogado